Vô e Vó. Não lhes chamo ''bisavós'', não lhes chamo '' os avós velhos''. Chamo-lhes Vô e Vó, mas também lhes podia chamar pai e mãe. Hoje fui lá a casa e como sempre estavam a beber o café.
O Vô partia o pão aos bocadinhos e molhava-o no café, com uma paciência de Santo. Aquelas mãos escuras e enrugadas, fortes e gentis que tantas vezes senti tocar nas minhas, brancas e suaves, com o carinho e amor de sempre. Os olhos claros, vidrados e cansados, que já viram passar quase cem anos de História, olham para mim como se ainda fosse pequenina, quando vinha da escola nas tardes frias e chuvosas de Inverno e brincava lá em casa até à noite.
A Vó estava sentada no sofá, com o lencinho branco na mão. ''Oh filha, estou sempre de pingo ao nariz...'' diz-me com aquela mesma voz doce e precipitada que me ensinou a falar. Os olhos azuis, aguados e já fatigados, fixam o burralho por detrás dos óculos fundo-de-garrafa velhos e embaciados. Não interessa, a Vó está a olhar mas não está a ver. O que ela vê são as memórias. Passa os dias trancada no seu pensamento, a rever o que passou. Fala pouco e diz quase sempre as mesmas coisas. É da idade. Ainda assim, tem no rosto a mesma expressão que lhe conheço desde que sou gente. Sorriso ligeiro, olhos vincados pelo passar do tempo, rugas marcadas e um ar de paz, de tranquilidade.
Fazem-me sentir tão humilde e tão grata. Eles criaram-me, deram-me os valores que tenho e nunca terei com ninguém uma ligação como tenho com eles. Não digo tão forte, digo sim tão especial. Nunca ninguém será capaz de entender o que temos, porque mais ninguém o tem. Era capaz de passar o resto do dia a olhar para eles...
"O Mundo é tão lindo, e eu tenho tanta pena de morrer."