Estavam abraçados há mais de meia hora. O mar estava calmo, as ondas batiam devagar como se as forças divinas que as comandam tivessem encontrado a serenidade de quem se apaixona. Soprava apenas uma leve brisa, salgada e fresca a cortar o ar quente, abafado. O sol brilhava com o tom baço de um fim de tarde de Abril. Pedro e Inês nunca tinham sequer pensado que o reencontro pudesse ser assim, tão repentino, não planeado, surpreendente.
Encontraram-se por acaso, no mesmo restaurante à beira-mar. Era o aniversário da mãe da Inês e como sempre tinham ido ao seu restaurante preferido. A família era numerosa e reunia-se à volta da mesa como se estivesse a celebrar a própria vida, rindo, conversando... Inês lembrou-se da última vez que ali tinha estado. Aquela noite. Naquela noite tão impiedosa e impaciente que mal podia esperar para destruir os seus sonhos. Ao lembrar-se disto Inês foi invadida por um sentimento de solidão, de desespero e mágoa. Não podia deixar que a mãe a visse chorar, não naquele dia… Pegou no casaco e saiu. Disse à mãe que tinha que fazer um telefonema, coisas urgentes de trabalho, não tarda nada estaria de volta. Ela não estranhou, não seria a primeira vez.
Era também a noite do jantar de curso de Pedro. Todos os anos, pela mesma altura, Pedro e os seus colegas de curso organizavam um jantar, para manter vivas as recordações e não deixar perder as amizades. Cada vez que entrava naquele restaurante Pedro sentia remorsos. Afinal, tinha sido naquele sítio que Pedro tinha cometido o maior erro da sua vida. Tentou fazer-se forte mas no fundo sentia aquela tristeza de quem não se percebe a si próprio, aquela desilusão de quem erra. Os amigos não notaram. Encontraram-se antes num pequeno bar para irem depois todos juntos para o restaurante. Pedro não levou o carro, a noite prometia e já havia um condutor designado. “Os jantares com a malta nunca acabam bem, o melhor é prevenir”, pensou ele. Quando chegou ao restaurante não podia acreditar. Viu Inês sentada a olhar para o mar, talvez em busca da reconfortante solidão daquela vasta imensidão para complementar a sua. Sozinha, descalça, enroscada no casaco claro. O cabelo comprido, encaracolado, caía-lhe pelas costas em largos canudos, “tapando-lhe as asas de anjo”, pensou Pedro. “É ela, só pode ser ela!”. Disse ao André, o amigo com quem tinha vindo, para ir entrado. André ainda perguntou se havia algum problema mas Pedro nem respondeu, já estava a meio do caminho para ir ter com Inês.
Quando chegou perto dela parou. Inês estava compenetrada naquele cenário solitário, nem sequer tinha ouvido os passos. Pedro questionava-se: “Será que ela me quer ver? Talvez seja melhor não lhe dizer nada…”